06/05/2018

Quando você se apega a uma memória


   Eu senti uma coisa dentro de mim que eu pensei que eu demoraria para sentir: uma pontada de satisfação. Satisfação? De estar vivendo tudo isso. Eu já olhei para aquela foto em que nós dois aparecíamos juntos mais de cem vezes e só agora é que eu sinto que consegui enxergá-la diferente: algo mudou dentro de mim. Eu olho para aquela foto e finalmente consigo sentir uma fraçãozinha de paz, substituindo a angustia e a vontade de rir sarcasticamente por toda aquela situação vivenciada, que subiam sobre a minha garganta todas as outras vezes que eu havia a olhado. 
   Ela é uma pessoa muito bonita, muito atraente, e o momento foi engraçado, eu estava nervosa, não conseguia parar de sorrir, não conseguia manter meus olhos sobre ele por estar extremante envergonhada, desviava-o muitas vezes para as outras pessoas, para o chão, para o céu. Eu estava totalmente constrangida por estar vivendo toda aquela situação porque eu nunca havia imaginado que aquilo realmente pudesse acontecer. Aquilo estava acontecendo mesmo de verdade? Porque parecia tanto com o sonho que eu havia tanto tido por tanto tempo (não só com ele, mas com outras pessoas que haviam "aparecido" na minha vida). E a risada dele era tão maravilhosa, carregava uma paz tão gostosa. E a satisfação que inflava a minha alma quando eu percebia que ele ria com as coisas que eu falava era imensurável. Ele realmente queria me beijar, saca isso? Eu não tinha sacado até o momento h.
   E foi muito bizarro. Senti algo que eu nunca havia sentido antes: eu queria aproveitar aquele momento com todas as forças. Eu estava muito atraída por aquele cara, e tanto que eu não consegui conter a minha alegria e o abracei. Foi um dos momentos mais gostosos que eu já passei, e só de lembrá-lo eu sinto um frio na barriga. Eu estava muito atraída por aquela pessoa.
   E eu criei expectativas, mesmo não querendo. Eu não consegui me controlar, e eu sinceramente acho que não seria possível controlar esses pensamentos que me invadiram logo que tudo passou. Eu estava no ônibus e revivi aquele momento no mínimo umas cinco vezes seguidas, e eu não conseguia tirar o sorriso do meu rosto. Tudo ainda parecia um sonho. E eu havia sido a protagonista de tudo aquilo.
   Confesso que as expectativas, pouco a pouco, foram me consumindo, até que eu não conseguisse mais não pensar nele. E a ansiedade se instaurou dentro de mim. Eu não conseguia parar de falar dele, não conseguia parar de pensar nele, não conseguia conter a minha vontade de me esbarrar com ele e poder cumprimentá-lo, poder conversar mais com ele, conhecer ele. Mas ai está o problema, a sementinha de toda a enrascada na qual eu estava me enfiando, sozinha: eu estava tentando estender aquele momento vivido tão intensamente por mim para outros, buscando justamente poder sentir novamente toda aquela energia que eu havia sentido antes.
   E eu corri atrás dele, como nunca corri atrás de ninguém: cumprimentei ele quando talvez ele fosse passar reto por mim, tentei usar as redes sociais para mostrar que eu realmente tinha interesse em conhecer mais ele, em conversar com ele, mas ele não fez nada. E, por fim, me arrisquei ainda mais e abri o meu coração para uma das pessoas que julgo ser uma das mais próximas dele, e eu fiquei ansiosa pela resposta dele. E hoje, contudo, eu vejo que ele já tinha me dado a resposta que eu tanto precisava. 
   Só agora eu estou realmente sentindo essa resposta, que julguei por muito tempo não existir porque eu não queria mesmo acreditar nela: ele não tinha interesse em estender aquele momento vivido por nós dois. E, se for pensar, a intensidade daquilo provavelmente foi diferente para nós dois. Eu coloquei expectativas demais, e eu não me sinto culpada por isso.
   Eu não sou culpada por isso: é totalmente normal fazer isso. Ele é uma pessoa com uma energia tão boa, eu estranharia se eu não me atraísse por ele. E eu entendo, agora, o porquê de eu ter querido tanto que todas essas expectativas se concretizassem: tudo parecia tão possível. 
   Hoje eu olho para essa foto e vejo que eu exagerei, e ai que está: isso não é um problema. Certo, isso realmente me causou um problema, mas eu justificaria isso pelo seguinte fato: eu nunca havia vivido tudo isso, então possivelmente eu não saberia como encarar essa situação, e isso é sempre o que mais incomoda: quando eu me vejo impotente diante da realidade. Eu exagerei sim, mas porque eu vivi aquilo de uma forma tão intensa que eu queria estender aquele momento. Eu sinto demais, e isso nunca vai ser um problema, ou pelo menos nunca deve ser. 
   O sorriso dele é tão lindo. Ele é uma pessoa tão linda, por fora e provavelmente por dentro também. E eu espero mesmo poder conhecer ele mais um pouquinho, porque ele parece realmente ser uma pessoa com uma energia tão boa. Mas eu não preciso disso, de me sentir como uma perdedora. De me sentir inferior a ele: eu não sou. Ele não tem culpa, e muito menos eu tenho culpa. 
   Hoje você possivelmente só tem olhos para ele, mas ele não é a única pessoa que você vai achar atraente nesse mundo, mulher, então pare de te se sentir tão machucada com o "não" dele. E ele claramente não é a única pessoa que vai querer te beijar. E com certeza você passará por outros momentos como esse, então se acalme. Deixa de querer ser radical, você consegue lidar com toda essa situação: você está conseguindo lidar. Talvez você não acredite em mim, mas você está conseguindo lidar com tudo isso! Dê mais créditos a você e pare de se sentir como uma pessoa azarada, porque você não é. 
   E da próxima vez que eu olhar para ele, espero que eu consiga não me sentir mais tão mal. Eu espero que eu consiga olhar para ele e vê-lo como uma pessoa normal, como ele realmente é. Nem mais, nem menos: normal. E eu não preciso tentar me fazer esquecer daquele momento: jamais. Eu só preciso entender, compreender com o meu coração, que aquilo aconteceu sim, mas ficou somente ali: limitado dentro de uma caixinha que eu quero manter sempre na minha memória, porque foi um momento tão bom! 
   E ao olhar essa foto, e ver como ele sorri e me lembrar de tudo o que aconteceu, eu sinto que estou finalmente conseguindo enxergar tudo isso com um outro olhar. Afinal, ainda bem que eu vivi tudo isso, todas essas emoções! Ainda bem...

29/04/2018

Ambições sufocantes e imediatismo


   Desligo o meu celular. Olho a tela do meu notebook e me deparo com o seguinte questionamento: o que eu quero que a faculdade me traga? Pois bem, eu quero ser uma pessoa mais confiante. Eu quero conseguir falar bem em público, quero poder fazer seminários, ou mesmo explicar meu posicionamento para a classe, sem me sentir impotente. Quero ser confiante o suficiente para que eu não me sinta mais tão pequena diante das pessoas: sem graça, feia, boba, infantil, chata. Quero me apaixonar por alguém, mas também quero sentir reciprocidade nisso. Aliás, quero me apaixonar por mim também, e ser menos crítica diante dos meus pensamentos e comportamentos. Quero fazer amizades que eu sinta que são para a vida, e quero me sentir acolhida por um grupo de pessoas como eu nunca me senti na minha vida. Quero poder ir em festas sem me importar muito com quem eu vou, só por saber que eu sou completamente segura a ponto de conseguir me divertir comigo mesma, sem precisar de beber para poder diminuir esse imperativo, esse senso de autopreservação, que tanto me tensiona. Quero me sentir pertencente a um ambiente. Quero ser capaz de acolher as outras pessoas, quero aprender a me acolher. Quero olhar no espelho e me orgulhar de tudo o que eu sou, inclusive com os meus defeitinhos. Quero sentir menos rancor das pessoas e aprender a perdoá-las, mas primeiro quero aprender a me perdoar. Quero ser reconhecida pelas minhas habilidades. Quero saber explicar conteúdos, situações e acontecimentos, assim como meus posicionamentos pessoais, para as pessoas. Quero ser uma ativista feminista, quero me engajar mais na política, quero fazer a diferença. Quero me importar menos com o fato de as vezes ser ignorada, de algumas vezes as pessoas não me cumprimentarem, porque eu saberei que não foi de propósito: ou se for, quero ser confiante o suficiente para saber que a culpa não é minha. Quero saber respeitar as minhas limitações, e saber com o coração que eu posso pedir ajuda quando eu precisar, e não só quando eu estiver prestes a explodir. Quero estar em um relacionamento sério, poder sentir gestos apaixonados. Quero não me sentir tão burra quando eu não entendo uma matéria, nem tão ingrata quando reclamo de algumas coisas que me aborrecem no momento. Quero saber entender que a toxidade das pessoas não é culpa minha, e que eu não sou obrigada a aturar pessoas que me fazem me sentir menor. Quero poder me sentir mais confortável no meio social. Quero estar feliz onde eu estou. E eu quero tudo isso imediatamente, o que é um erro.
   As coisas não vão ser entregues de mão beijada para você, menina, e você precisa entender isso. Você precisa correr atrás, assim como você está correndo exatamente nesse momento, totalmente jogada nesse novo mundão completamente aversivo a sua zona de conforto. Mas você precisa entender também que coisas assim demandam experiência: demandam tempo. Então, calma!
   Calma, respira fundo, tenta aproveitar mais toda essa caminhada, por mais dolorosa que ela possa ser. Calma, não saia se atropelando toda assim, porque no fim você vai conseguir tudo isso que você deseja, sério mesmo. Mas você precisa de calma. Respira fundo, feche os olhos, cumpra com as suas responsabilidades e fique satisfeita com o seu desempenho presente. Porque você precisa ser mais humilde consigo mesma, moça.
   Assim como demoramos para aprender a andar com nossos próprios pezinhos no mundo, nosso crescimento interno também é demorado. Extenso e lento. Então calma, não se estresse. Vai dar tudo certo.
   Aproveite a caminhada. Olhe para o seu redor e repare nas pequenas coisas que, na pressa, você esquece de reparar. Olhe para as pessoas e queira estar com aquelas pessoas, leia textos querendo lê-los (por mais que alguns, cof cof Cofer, sejam difíceis de engolir). Esteja presente nos momentos, absorva o máximo deles e esteja satisfeita com o seu desempenho neles. Permita-se aproveitar mais esses momentos, mulher, e não fique presa no futuro. Porque, assim como já explícito, essas coisas vão acontecer, então calma. Para que pular etapas? Pense no depois, mas pense especialmente no agora. Assim você aproveita mais toda essa oportunidade sensacional que você está podendo vivenciar.
   Até porque se já viéssemos ao mundo com todas as nossas ambições pessoais concretizadas, para que então estaríamos vivendo? Qual seria a graça de estarmos aqui sem possuirmos a capacidade de mudar, de crescer?
   Pois é. Então respira. Agradeça pelos momentos, por mais difíceis que eles sejam, só por saber que eles vão ser essenciais para o seu crescimento pessoal. E aproveite essa caminhada que, acredite em mim, pode ser maravilhosa. Vai ser maravilhosa.

Início de abril, pós churras da psico

24/01/2018

Sobre o meu orgulho por você


   Eu acho que estou com medo. Esperar ele me responder. Por que para mim isso me parece mais uma tortura? Estar nesse dilema entre querer que ele me responda imediatamente ou querer que ele tenha caído no sono e que só visualize no dia seguinte. Pois bem, pode ter certeza de que ele visualizou na mesma noite, enquanto você estava se remoendo de ansiedade, resumindo isso tudo. 
   Somente saiba que, independentemente da resposta dele, você é uma mulherão da porra. Sim, você é isso mesmo, com todas essas palavras. M-U-L-H-E-R-Ã-O D-A P-O-R-R-A. Porque você tomou atitude. E isso, minha cara, é uma baita de um tapão na cara da Mayara de dois anos atrás. Um tapa na cara da Mayara de um ano atrás, que estava se remoendo de raiva porque tinha conseguido uma foto horrível com uma professora que te marcou tanto num dos momentos mais importantes da sua vida. Sabe, ontem você estava se martirizando por conta de uma péssima foto, que na real nem tão péssima ficou: hoje eu olho para a foto e fico tão feliz. E, hoje, você tomou uma atitude. E que atitude.
   Independente da resposta dele, saiba que vai ficar tudo bem. Cara, independente da resposta dele, outros caras melhores aparecerão na sua vida, e pode apostar que te farão bem também, senão mais. Ele pode ser uma pessoa incrível, com todas as qualidades dele, mas você sabe o ponto fraco dele. Ou pelo menos o ponto fraco dele para você. E, de novo, o que for para ser, será. E o que não for, não será, e está tudo bem também!
   Saiba que só de você ter se desafiado a abrir o jogo com ele já é um baita de um desafio para você, que você conseguiu superar. Eu, se fosse a Mayara de três anos atrás e estivesse olhando para você agora, não acreditaria que eu me tornaria nesse mulherão em quem você está se tornando. Sério, meus olhinhos estariam brilhando de admiração por ela: eu estou completamente surpresa e admirada por essa decisão, por essa atitude. 
   E acredite, mais desafios como esse virão. Mas pode ter certeza de uma coisa: você está crescendo, e a cada dia que passa eu te admiro mais e mais. Você está no caminho certo, mais do que certo, e eu estou aqui, do seu lado. E olha, não queria estar em nenhum outro lugar senão vendo essa menina crescer tanto e se tornando esse mulherão que hoje eu já consigo ver. 
   Sabe aquele dia que você estava esperando ver você mesma se tornando toda independente, segura de si, sem medo de tomar iniciativas, consciente de que as únicas coisas que estariam pesando na sua consciência seriam as coisas que você fez, as atitudes que você tomou, as palavras que você disse para uma outra pessoa (e não em um diálogo/monólogo interno), e não mais as coisas que não aconteceram? Pois é, esse dia está chegando, eu estou sentindo. E hoje você está infinitas vezes mais próxima desse dia do que ontem. 
   Eu só tenho orgulho de você, sabia?

Um texto difícil de ser postado, que eu escrevi num 
dia difícil, quando eu ainda estava abalada demais.
Mas sinto que hoje eu já posso publicá-lo.

10/01/2018

2017: um ano difícil, mas surpreendente

   2017 foi um ano engraçado. Foi um ano em que eu esperava muitas coisas: que fosse um ano pesado, exaustivo, frustrante, desafiador. E, bom, realmente foi.
   O ano começou com a seguinte mensagem: "Você não passou na faculdade dos sonhos". Depois de um mês, sofrido, de espera, saia os resultados das minhas provas: primeiro o do ENEM, depois o da UNESP. E, nossa, foi uma bomba. Uma bomba poderosa, que conseguiu me atingir de uma forma que eu não sabia que era possível. 
   Eu lembro que eu estava pessimista, ao final do meu primeiro ano de vestibulanda, do meu desempenho dos vestibulares, contrariando a todos que diziam que eu passaria. E, no entanto, finalmente observar o meu resultado final foi devastador, decepcionante. Mais ainda, sentir aquilo, sentir aquela nota? Sentir como se você tivesse perdido uma batalha que havia sido tão árdua e que você havia dado todas as suas forças? Foi terrível. Foi frustrante. Foi destruidor.
    Eu nunca havia me sentido tão incapaz na minha vida. 
   Ainda, pior ainda foi ver a aprovação das outras pessoas. E o ego me maltratando a todo instante. "Olha só, todos eles passaram e menos você, viu? Olha como você é burra". E o que me veio, primeiramente, foram todos aqueles anos em que havia me dedicado aos estudos, em que eu havia dito para mim mesma que eu havia me esforçado tanto, abdicado uma possível (e idealizada) "vida social"  para me empenhar aos estudos, especialmente em 2016, e que não haviam valido para nada. Nada. Haviam sido um desperdício total. 
   E depois, o questionamento: por que? Por que eu não havia conseguido? Onde eu havia errado?  
   Todas as pessoas ao meu redor dizendo que haviam passado, todos aqueles comentários nos perfis dos futuros universitários parabenizando-os pela conquista, especialmente os dos meus antigos professores, que antes haviam me dito que eu era capaz. Eu. Por que não eu? Foi o meu principal questionamento: por que não eu?
   Pois bem, hoje eu sei a resposta para ela: pois eu não estava preparada. Intelectualmente, mas especialmente psicologicamente, socialmente, internamente.
   Foram tantas coisas que eu aprendi em 2017, tantas coisas que mudaram a minha forma de ver o mundo. Aconteceram-me tantas coisas nesse ano, tantas coisas que me acrescentaram tanto: confiança, determinação, força, e que me produziram aprendizados tão importantes! E que eu tenho a absoluta certeza de que, caso eu realmente tivesse passado no vestibular, eu talvez não os teria alcançado (ou teria, mas de uma forma mais tortuosa e sem o mesmo impacto que eles me produziram).
   Primeiramente, percebi que ser vestibulanda, acima de tudo, é ter a consciência de que os vestibulares não são justos, e portanto, a última coisa que eles fazem é avaliarem o nosso conhecimento (afinal, são muitos os tipos de conhecimentos que existem no mundo, e não são simplificados somente ao raciocínio lógico e capacidade de decorar conteúdos teóricos e didáticos). Dessa forma, estudar para passar na faculdade, infelizmente, não é resumido a entender toda a matéria do universo, e sim de analisar e perceber a maneira como cada vestibular cobra seu respectivos conteúdos, mesmo que muitos deles sejam totalmente irrelevantes para a sua futura vida acadêmica (ou para a sua futura vida mesmo).
    Segundo:  aprendi melhor a me relacionar com as pessoas ao meu redor, ou melhor, dei um grande passo para perder a minha fobia social (coisa que eu percebi que eu tenho faz um bom tempo). Foi até engraçado, na verdade, a maneira como eu me aproximei da primeira pessoa no cursinho, ambiente na qual a última coisa que eu esperava era conhecer pessoas tão incríveis! Pois eu lembro que eu fiquei mais ou menos uma semana sem conversar com ninguém, com medo, com receio de me acharem estranha, medonha, sem graça, desinteressante. Uma semana quebrando a cabeça, tentando elaborar um plano mental para poder me aproximar de alguém, assim como eu havia feito no ano anterior. E pois é, novamente eu me peguei tentando controlar coisas incontroláveis: a vida. Aliás, de novo eu fui surpreendida: no momento em que eu menos esperava eu puxei conversa com uma menina que estava sentada na mesa da cantina e que aparentava ser muito simpática, já que eu havia chegado cedo demais ali (assim como o ano inteiro, risos). E bem, hoje eu a considero uma das pessoas mais meigas, mais positivas e boas da minha vida, e que tenho tanto orgulho de ter conhecido!
   Isso somando ao fato que, ao pedir informações a uma então colega da minha classe no ponto de ônibus perto do cursinho, acabei por conhecer uma das pessoas que mais me fariam dar risada no ano inteiro: uma pessoa incrível, super do bem, e com quem eu criei uma intimidade tão grande em um intervalo de tempo tão pequeno! E isso foi incrível.
   Terceiro: comecei a me permitir entender que eu não sou perfeita e, estando especialmente no cursinho, eu não saberia todas as respostas do universo (na realidade, em qualquer lugar, nunca saberei, porque eu sou humana, não uma máquina). Portanto, tirar dúvidas com os professores ou inclusive com as próprias colegas não é a coisa mais humilhante da vida, pelo contrário. No cursinho a maioria dos professores foram tão incríveis que muitas vezes eles se sentiam lisonjeados em me ajudar. E essa bondade, essa empatia, esse acolhimento, num momento onde tudo o que queremos fazer é chorar e chorar e chorar por não conseguirmos saber de tudo, é tão bonito. É tão humano (ironicamente, em um ambiente e em um contexto tão desumano como o de estudar loucamente para fazer uma única prova).
   Em 2017 tive várias aprendizados, entre eles os que irei citar agora: nesse ano, eu percebi que existem pessoas tóxicas na minha vida e que eu tenho o total direito de querer tirá-las da minha vida, sem egoísmo, sem arrogância, sem ser a cuzona da história (porque na verdade mesmo as cuzonas mesmo foram elas, convenhamos). Comecei também a amar e a incorporar a minha forma de vestir sem medo de opiniões alheias, criando o meu próprio estilo. Em 2017, assumi descaradamente a minha atração por pessoas, por homens, porque eu também sou humana (inclusive por um professor, e meu deus, como foi difícil assumir isso). Assumi que eu tive crush por mais de três anos em um menino que nunca me notou, pela primeira vez, de uma forma descontraída, e isso foi engraçado e desafiador.
   Em 2017, consegui conversar ainda mais com mais pessoas sendo exatamente eu mesma, e essa sensação é indescritível. Em 2017, paquerei e beijei um crush pela primeira vez (e isso é sensacional!). Em 2017, dancei sem ter vergonha se eu estava parecendo um boneco de posto, e percebi, inclusive, o quanto a música mexe com a minha alma (me fazendo entrar em transe sem sequer ter ingerido alguma coisa). Em 2017, mudei completamente a minha forma de pensar sobre várias coisas, e percebi que eu preciso parar de ser uma esponja e necessito aprender as coisas pelas minhas próprias experiências, e não pelas alheias (porque tudo depende do contexto vivenciado, tudo é relativo!).
   Em 2017, consegui, pela primeira vez, me abrir para tentar me relacionar com alguém. E bem, nesse ano também tive a minha primeira desilusão amorosa; mas apesar disso, de ele ter me feito muito muito muito mal por ter me feito quebrar a cara e ter perdido um tempo enorme me iludindo, ele me fez bem também. Me fez sentir-me confiante, desejável, acolhida como eu nunca havia me sentido por nenhum cara. Foi a primeira vez que eu consegui conversar com um garoto sem sentir-me paranoica, deixando as coisas rolarem no seu devido tempo (mesmo que, no fim, isso tudo não tenha saído do ambiente virtual).
   Em 2017, fui totalmente honesta sobre um dos meus maiores problemas com a minha psicóloga, e que eu não tinha sequer conhecimento (por isso que eu amo tanto essa profissão!). Em 2017, aprendi a dizer "não" e a respeitar o meu corpinho exatamente da forma como ele merece (afinal ele é meu templo sagrado, não?). Em 2017, descobri o meu amor incondicional por gatos, me fazendo perceber, de novo, que gostos e preferências são relativos. Em 2017, reli o meu livro favorito da vida (e é um livro de vestibular, olha só). Em 2017, puxei conversa com dois crushes diferentes no cursinho (e como foi prazeroso conseguir ter feito isso!).
   Em 2017, ri tanto e não me preocupei se eu estava sendo ridícula rindo daquela forma, afinal rir é a melhor coisa do mundo (mas depois de abraçar, é claro). Em 2017, descobri que eu tenho uma amiga que é mais que minha amiga: é minha porto seguro, meu ombro quando eu preciso chorar, minha máquina de ouvir xingamentos quando eu quero somente estraçalhar a cabeça de alguém. Em 2017, aprendi a amar o meu corpo, os meus olhos, a minha sobrancelha, o meu nariz, do jeitinho que ele é: maravilhoso. Em 2017, eu percebi, percebi mesmo, que um das minhas maiores neuroses em mim mesma não passava de invenção, i-n-v-e-n-ç-ã-o, porque o meu corpo é perfeitinho do jeito que ele é e, alias, descobri também que alergia é alergia, só alergia, e não doença (infecciosa e nojenta, como meu ego sempre me falou a minha vida toda).
   Em 2017, percebi que cada coisa tem o seu devido tempo e, portanto, o fato de eu não ter passado de primeira no vestibular não me faz uma perdedora, pelo contrário: o fato de eu ter me permitido encarar toda essa jornada exaustiva e dolorida de estudos, tanto fisicamente como emocionalmente, me faz uma vencedora ainda maior, porque todo o meu esforço, que só eu sei o quanto ele existiu, vai ser recompensado. E aí sim vou me achar a maior vitoriosa do mundo, sensação que todo mundo merece sentir.
   Em 2017, aprendi que todo o meu contexto me fez ser o que eu sou, induzindo na construção das minhas barreiras, dos meus obstáculos, das minhas bolas de neve, das minhas inseguranças, mas também da minha determinação e dos meus valores mais profundos. E, portanto, os meus problemas não foram causadas por minha culpa, nunca foi. E, em 2017, eu também descobri forças em mim que quer desconstruir todos os probleminhas que afetaram a minha vida, social e individual, por tanto tempo: abraçando o meu passado, com todas as lágrimas e sendo a irmã mais velha que eu merecia ter sido para mim naqueles momentos tão obscuros, e corrigindo também posturas que me fizeram tão mal e que não as quero mais.
   Demorou para eu conseguir concluir esse texto, por motivos de vestibulares no início do ano e psicológico para conseguir me ordenar internamente, mas acho que estou finalmente conseguindo. 2017 foi um ano pesado, exaustivo, frustrante e desafiador, como eu disse inicialmente; mas foi um ano também tão intenso, tão grande, tão desafiador (no bom sentido), tão cheio de amor, tão cheio de aprendizados e experiências, tão cheio de desconstruções, tão humano, que eu não conseguiria sintetizá-lo em poucas palavras.
   2017 foi um ano necessário para a minha vida pessoal, e sem dúvidas seria um ótimo fechamento para esse ciclo que vivenciei por todo esse ano (mas que pareceu, sem dúvidas, ter se passado por muito mais tempo). Mas, como uma das coisas que eu aprendi nesse ano também foi de tentar aceitar as coisas que vêm para a gente, mesmo sendo inicialmente extremamente ruins, para tentar absorver delas as coisas mais boas que podem nos oferecer; caso isso não seja um encerramento, está tudo bem também.
    Eu somente sou intensamente grata por todo esse ano, turbulento, mas inesquecível, e espero que 2018 também me traga coisas boas. Que em 2018 eu continue tendo essa visão otimista que eu venho tentando desenvolver, e que eu consiga orgulhar as pessoas que eu mais amo nesse mundão inteiro (mesmo sabendo que eles já tem orgulho de mim, e essa sensação não tem preço).
   E que, por fim, em 2018 eu sinta ainda mais orgulho da pessoa que eu estou me tornando.